O câncer gástrico hereditário costuma ser associado principalmente a alterações nos genes CDH1 e CTNNA1. Embora esses genes tenham grande importância clínica, novas evidências indicam que a predisposição genética ao câncer de estômago pode envolver um conjunto muito mais amplo de genes relacionados a diferentes síndromes hereditárias.
Um estudo internacional publicado na EBioMedicine, periódico do grupo The Lancet, identificou variantes germinativas relevantes em genes como ATM, BRCA2, MLH1, TP53, BRCA1, PALB2, RAD51C, RAD51D, CHEK2 e PMS2. Os resultados reforçam a importância de considerar painéis multigênicos na avaliação de pacientes com diagnóstico precoce ou histórico familiar de câncer.
Portanto, limitar a investigação genética somente ao gene CDH1 pode deixar parte dos pacientes com predisposição hereditária sem uma explicação molecular.
Resposta rápida
O câncer gástrico hereditário pode estar relacionado a alterações germinativas em diferentes genes de predisposição ao câncer, e não apenas em CDH1 e CTNNA1. Por isso, painéis multigênicos podem ampliar a identificação de variantes hereditárias, orientar o rastreamento de outros tumores e permitir a avaliação de familiares potencialmente expostos.
O que é câncer gástrico hereditário?
O câncer gástrico hereditário ocorre quando uma alteração genética germinativa aumenta a predisposição de uma pessoa ao desenvolvimento de câncer no estômago. Como essa variante está presente desde o nascimento, ela também pode ser transmitida aos filhos.
Entretanto, possuir uma variante patogênica não significa que a pessoa obrigatoriamente desenvolverá câncer. O resultado indica um risco aumentado, cuja magnitude depende do gene envolvido, do tipo de variante, do histórico familiar e de outros fatores clínicos e ambientais.
Além disso, o câncer gástrico pode fazer parte do espectro de diferentes síndromes de predisposição hereditária ao câncer. Entre elas, destacam-se:
- síndrome do câncer gástrico difuso hereditário;
- síndrome de Lynch;
- síndrome de Li-Fraumeni;
- polipose adenomatosa familiar;
- síndrome de Peutz-Jeghers;
- síndromes relacionadas a genes de reparo do DNA.
Consequentemente, uma investigação mais ampla pode revelar riscos que vão além do estômago.
Qual é a relação entre CDH1 e câncer gástrico?
O gene CDH1 fornece instruções para a produção da E-caderina, uma proteína importante para a adesão e a organização das células. Variantes patogênicas nesse gene estão associadas, principalmente, à síndrome do câncer gástrico difuso hereditário.
O gene CTNNA1 também participa de mecanismos relacionados à adesão celular e pode estar envolvido na predisposição ao câncer gástrico difuso.
Por esse motivo, durante muitos anos, a investigação genética do câncer gástrico hereditário concentrou-se principalmente nesses dois genes. No entanto, eles não explicam todos os casos familiares ou precoces.
A própria literatura científica mostra que o câncer gástrico pode surgir dentro de síndromes relacionadas a genes que também aumentam o risco de câncer de mama, ovário, próstata, pâncreas, colorretal e outros tumores.
Estudo avaliou 750 pacientes com câncer gástrico
O estudo publicado em 2025 avaliou uma coorte internacional e multicêntrica formada por 750 pacientes com câncer gástrico. Os participantes foram selecionados por apresentarem diagnóstico precoce ou histórico familiar de câncer.
Os pesquisadores utilizaram painéis genéticos ou sequenciamento completo do exoma para investigar variantes patogênicas ou provavelmente patogênicas em genes de predisposição ao câncer.
Ao todo, 45 pacientes, equivalentes a 6% da amostra, apresentaram variantes germinativas clinicamente relevantes. Como o estudo analisou uma população selecionada por idade de diagnóstico ou histórico familiar, essa frequência não deve ser automaticamente aplicada a todos os pacientes com câncer gástrico.
Ainda assim, os resultados demonstram que uma parcela importante das alterações seria ignorada caso a análise se limitasse aos genes tradicionalmente associados ao câncer gástrico difuso hereditário.
Quais genes foram identificados no estudo?
Entre os 45 pacientes com resultados positivos, os pesquisadores encontraram alterações nos seguintes genes:
ATM: 17 pacientes;
BRCA2: 10 pacientes;
MLH1: cinco pacientes;
TP53: três pacientes;
BRCA1, PALB2, RAD51D e CHEK2: dois pacientes em cada gene;
RAD51C e PMS2: um paciente em cada gene.
O ATM apresentou o maior número de variantes, seguido pelo BRCA2. Esses genes participam de mecanismos relacionados ao reparo do DNA e também estão associados à predisposição a tumores em outros órgãos.
Essa descoberta amplia a visão tradicional sobre o câncer gástrico hereditário. Afinal, o risco genético pode estar relacionado não somente a uma síndrome específica do estômago, mas também a síndromes de predisposição multitumoral.
O tipo intestinal também pode apresentar predisposição hereditária
Outro resultado relevante envolveu os diferentes tipos histológicos de câncer gástrico.
As variantes patogênicas ou provavelmente patogênicas foram identificadas em:
- 9,8% dos pacientes com tumores do tipo intestinal;
- 4,3% dos pacientes com tumores do tipo difuso;
- 4,5% dos pacientes com tumores de histologia mista.
Portanto, a frequência observada foi maior nos tumores do tipo intestinal. Esse resultado questiona a percepção de que a investigação hereditária deve se concentrar quase exclusivamente nos casos de câncer gástrico difuso.
Embora o subtipo histológico continue sendo importante, ele não deve funcionar como o único fator na decisão de solicitar um teste genético.
Critérios clínicos tradicionais podem deixar pacientes sem diagnóstico
Um dos dados mais importantes do estudo foi a diferença entre os resultados moleculares e os critérios clínicos de testagem.
Dos 45 pacientes que apresentaram variantes patogênicas ou provavelmente patogênicas, somente 16 atendiam aos critérios da National Comprehensive Cancer Network considerados pelos pesquisadores para pelo menos uma síndrome de predisposição ao câncer.
Em outras palavras, 29 pacientes com alterações relevantes poderiam não ter sido identificados caso a testagem dependesse exclusivamente dos critérios clínicos utilizados na análise.
Isso acontece porque nem sempre o histórico familiar é evidente. Famílias pequenas, ausência de informações médicas, falecimentos precoces, adoção, baixa penetrância genética e diferenças na expressão da doença podem esconder um padrão hereditário.
Assim, a ausência de vários familiares com câncer não exclui automaticamente a possibilidade de uma predisposição genética.
Quando considerar um teste genético para câncer gástrico?
A indicação deve considerar a avaliação clínica individual e, sempre que possível, o aconselhamento genético. Entretanto, alguns contextos merecem atenção especial:
Diagnóstico de câncer gástrico em idade precoce
Quanto mais jovem o paciente no momento do diagnóstico, maior pode ser a suspeita de predisposição hereditária, especialmente quando não existem fatores de risco evidentes.
Histórico familiar de câncer gástrico
Dois ou mais casos na mesma família, principalmente em parentes próximos ou em diferentes gerações, podem indicar um componente hereditário.
Diferentes tipos de câncer na mesma família
A presença de câncer gástrico combinada a tumores de mama, ovário, pâncreas, próstata, cólon, endométrio ou outros órgãos pode sugerir uma síndrome de predisposição multitumoral.
Múltiplos tumores no mesmo paciente
Pessoas que desenvolveram mais de um câncer primário também podem se beneficiar de uma investigação genética mais abrangente.
Características histológicas ou clínicas sugestivas
Tumores gástricos difusos, carcinomas com células em anel de sinete, poliposes e outras manifestações específicas podem aumentar a suspeita clínica. No entanto, conforme demonstrado pelo estudo, tumores do tipo intestinal também podem apresentar variantes hereditárias relevantes.
Por que os painéis multigênicos podem ser mais completos?
O painel multigênico analisa simultaneamente diversos genes associados à predisposição ao câncer. Dessa forma, ele amplia a investigação quando mais de uma síndrome hereditária pode explicar o histórico clínico ou familiar.
Essa abordagem pode contribuir para identificar uma alteração que não seria encontrada em um teste direcionado exclusivamente ao gene CDH1.
Além disso, os resultados podem ajudar a equipe médica a:
Personalizar o acompanhamento
O gene identificado pode orientar protocolos de rastreamento para câncer gástrico e para outros tumores associados à mesma síndrome.
Avaliar estratégias de redução de risco
Dependendo do gene, do histórico familiar e do risco estimado, a equipe médica pode discutir estratégias específicas de vigilância ou prevenção.
Apoiar decisões terapêuticas
Algumas alterações em genes de reparo do DNA podem apresentar relevância para a escolha ou discussão de determinadas estratégias terapêuticas. Entretanto, essa interpretação deve considerar o contexto clínico, as características do tumor e as evidências disponíveis para cada variante.
Orientar a testagem em cascata
Quando uma variante germinativa é identificada, familiares biológicos podem realizar uma análise direcionada para descobrir se também são portadores.
Desse modo, pessoas que ainda não desenvolveram câncer podem receber acompanhamento individualizado, enquanto aquelas que não herdaram a variante familiar podem evitar procedimentos desnecessários relacionados àquela alteração específica.
Resultado negativo exclui predisposição hereditária?
Não necessariamente.
Um resultado negativo significa que o teste não identificou variantes patogênicas nos genes e nas regiões analisadas. No entanto, algumas famílias podem apresentar alterações ainda desconhecidas, variantes em genes não incluídos no painel ou mecanismos que a metodologia utilizada não consegue detectar.
Por isso, a interpretação não deve ocorrer de forma isolada. O profissional precisa relacionar o resultado ao histórico pessoal, à árvore familiar, ao tipo de tumor e às limitações técnicas do exame.
Além disso, a reavaliação periódica pode ser importante, pois a classificação das variantes e o conhecimento sobre os genes evoluem com o avanço da ciência.
Qual é a diferença entre teste germinativo e teste somático?
O teste germinativo procura alterações hereditárias presentes nas células do organismo. Para isso, geralmente utiliza amostras de sangue ou saliva. O resultado pode indicar uma predisposição transmitida entre gerações e apresentar implicações para os familiares.
Já o teste somático analisa alterações adquiridas pelo tumor ao longo de seu desenvolvimento. Essas variantes não estão necessariamente presentes no restante do organismo e, em geral, não são herdadas.
Embora os exames tenham objetivos distintos, eles podem se complementar. A escolha da análise adequada depende da pergunta clínica: investigar predisposição hereditária, caracterizar molecularmente o tumor ou realizar ambas as avaliações.
Painel de Câncer Gástrico Hereditário da Life Genomics
A Life Genomics disponibiliza o Painel de Câncer Gástrico Hereditário com análise de CNV, desenvolvido para avaliar genes associados ao risco hereditário de câncer gástrico.
O exame utiliza tecnologia de sequenciamento de nova geração, conhecida como NGS, e inclui a detecção de variações no número de cópias de segmentos genômicos, chamadas de CNVs.
De acordo com as informações do exame, o painel avalia genes relacionados ao câncer gástrico difuso hereditário e a outras síndromes de predisposição ao câncer, incluindo:
APC, ATM, BLM, BMPR1A, BRCA1, BRCA2, CDH1, CTNNA1, EPCAM, GREM1, KIT, MLH1, MSH2, MSH6, MUTYH, NF1, PDGFRA, PMS2, RNF43, SMAD4, STK11 e TP53.
Essa composição permite investigar não apenas os genes clássicos CDH1 e CTNNA1, mas também alterações relacionadas à síndrome de Lynch, síndrome de Li-Fraumeni, síndromes de polipose e outros quadros hereditários.
Quando o exame identifica uma variante relevante, a Life Genomics também possibilita a pesquisa direcionada da alteração em outros membros da família, favorecendo a testagem em cascata.
Além desse painel específico, a Life Genomics oferece painéis expandidos para diferentes síndromes de predisposição hereditária ao câncer. A seleção do teste deve considerar a história clínica, os tipos de câncer presentes na família e a avaliação do profissional responsável.
Uma investigação mais ampla pode proteger toda a família
A oncogenética não procura apenas explicar por que um paciente desenvolveu câncer. Ela também pode revelar riscos que ainda não foram reconhecidos em outros órgãos e em familiares aparentemente saudáveis.
O estudo publicado na EBioMedicine reforça essa perspectiva ao mostrar que variantes relacionadas ao câncer gástrico podem surgir em diversos genes de predisposição multitumoral. Além disso, muitos dos pacientes positivos não atendiam aos critérios clínicos tradicionais considerados na pesquisa.
Portanto, diante de câncer gástrico precoce, múltiplos tumores, histórico familiar sugestivo ou apresentações clínicas incomuns, vale considerar uma avaliação oncogenética mais abrangente.
Quando ampliamos a investigação genética, também ampliamos as possibilidades de prevenção, acompanhamento personalizado, tratamento e proteção familiar.
Entre em contato com a Life Genomics e conheça as opções de testes genéticos para investigação do câncer gástrico hereditário e de outras síndromes de predisposição ao câncer.
Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui avaliação médica, aconselhamento genético ou definição individualizada de conduta.
Perguntas frequentes sobre câncer gástrico hereditário
Todo câncer gástrico é hereditário?
Não. A maioria dos casos não está relacionada a uma síndrome hereditária identificável. Entretanto, diagnósticos precoces, agregação familiar, múltiplos tumores e determinadas características clínicas podem justificar uma investigação genética.
Um teste negativo para CDH1 encerra a investigação?
Nem sempre. Dependendo do histórico pessoal e familiar, o médico pode considerar um painel multigênico que inclua outros genes de predisposição ao câncer.
Pessoas sem histórico familiar podem apresentar uma variante hereditária?
Sim. O histórico familiar pode estar incompleto ou pouco evidente. Além disso, algumas variantes apresentam penetrância variável, fazendo com que nem todos os portadores desenvolvam câncer.
O teste genético pode beneficiar os familiares?
Sim. Quando uma variante patogênica germinativa é identificada, familiares biológicos podem realizar uma pesquisa direcionada da mesma alteração. Esse processo é conhecido como testagem em cascata.
Qual profissional pode solicitar o exame?
A indicação pode partir de médicos de diferentes especialidades, como oncologistas, gastroenterologistas, cirurgiões, geneticistas e outros profissionais envolvidos no acompanhamento do paciente. O aconselhamento genético ajuda na escolha do teste e na interpretação dos resultados.



